10/06/2026
⚠️ Há qualquer coisa de profundamente errada num país onde um caso desta gravidade consegue desaparecer tão depressa da conversa pública.
Em fevereiro de 2025 veio a público o caso de um homem que alegadamente contactava associações e particulares para adotar gatos e lhes infligir violência extrema até à morte.
Na altura houve choque, revolta, notícias, partilhas, promessas de que isto não podia ficar esquecido. E depois aconteceu aquilo que acontece quase sempre: o tempo passou, as pessoas seguiram para a indignação seguinte e o assunto começou lentamente a dissolver-se naquela espécie de amnésia coletiva em que este país é especialista.
Mas os animais continuam mortos.
E continua a existir uma questão perturbadora no meio disto tudo: como é que alguém associado a um padrão desta natureza continua sem uma resposta que faça as pessoas sentirem que os vulneráveis estão realmente protegidos?
Porque não estamos a falar de um ato isolado, impulsivo ou irrefletido. Estamos a falar de alguém que alegadamente procurava vítimas de forma ativa, que contactava associações, que manipulava pessoas para conseguir animais e que repetia comportamentos com níveis de violência incompatíveis com qualquer ideia minimamente saudável de humanidade.
É isto que revolta tanta gente.
A sensação de que, quando as vítimas são animais, tudo abranda. Tudo se relativiza. Tudo espera. Espera-se que o tempo passe, que a indignação enfraqueça, que as pessoas deixem de falar do assunto e que o horror deixe de parecer urgente apenas porque já não aparece diariamente nas redes sociais ou nas notícias.
Mas há coisas que não deviam poder ser absorvidas pela normalidade.
E talvez uma sociedade comece verdadeiramente a falhar quando consegue habituar-se depressa demais à ideia de que a crueldade extrema pode continuar a circular livremente entre nós.
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