22/10/2025
OTITE CANINA
Revisão Bibliográfica
Pedro Salvador
OTOVET
Otite Canina:
Estado da Arte
Diagnóstico e Tratamento
A otite canina é uma doença comum que afecta o ouvido dos cães, podendo acometer o ouvido externo, médio e, menos frequentemente, o interno. A sua elevada prevalência nas clínicas veterinárias torna o diagnóstico e tratamento fundamentais para a saúde e bem-estar do animal. Nos últimos dez anos, avanços científicos permitiram uma maior compreensão dos agentes etiológicos envolvidos e o desenvolvimento de estratégias terapêuticas cada vez mais eficazes e seguras (Harvey, 2022; Blanchard et al., 2025).
Diagnóstico e Microbiologia da Otite Canina
O diagnóstico da otite inicia-se com a avaliação clínica detalhada e exame otoscópico, acompanhados de análises laboratoriais. Estudos demonstraram que a microbiota do ouvido canino saudável é diversificada, dominada por bactérias como *Cutibacterium acnes*, *Staphylococcus pseudintermedius* e *Streptococcus* spp., enquanto em animais com otite ocorre uma redução dessa diversidade e uma proliferação de agentes patogénicos oportunistas, sobretudo *Malassezia pachydermatis* e *Staphylococcus pseudintermedius* (Harvey, 2022).
A identificação dos agentes por cultura convencional mantém-se como prática comum, mas estudos genómicos recentes revelaram a presença de microrganismos fastidiosos, não detetáveis por cultura simples, como *Finegoldia magna*, sublinhando a importância da metagenómica para alargar o diagnóstico microbiológico (Harvey, 2022). Além disso, a citologia auricular constitui uma ferramenta acessível para a identificação rápida de bactérias, fungos e estruturas associadas a biofilmes, cuja presença está relacionada com a persistência da infeção (Harvey, 2022).
Destaca-se entre os agentes patogénicos a *Pseudomonas aeruginosa*, pela sua capacidade de formar biofilmes resistentes e exibir múltiplas resistências a antibióticos. Estudos genómicos mostraram que estirpes caninas possuem grande semelhança com isolados humanos hospitalares, evidenciando a necessidade de uma abordagem One Health para esta bactéria (Blanchard et al., 2025; Silva et al., 2025). Além disso, *Enterococcus faecalis* e *Enterococcus faecium* têm sido isolados em otites crónicas, apresentando resistência significativa a antimicrobianos convencionais (Kim et al., 2022).
A avaliação diagnóstica avançada inclui otoscopia com vídeo, citologia, cultura com antibiograma, e, em casos de otite média, a técnica da miringotomia, que com abordagem minimamente invasiva permite obter amostras fiáveis (Harvey, 2022).
Tratamento Médico e Cirúrgico
O tratamento da otite canina deve ser individualizado consoante o agente etiológico e a extensão da doença. As terapêuticas tópicas que combinam antimicrobianos e anti-inflamatórios têm demonstrado elevada eficácia, como as formulações que contêm florfenicol, terbinafina e betametasona, as quais levam a uma redução significativa dos sinais clínicos sem efeitos adversos (Treviño et al., 2018; Nuttall et al., 2017).
O uso criterioso de antibióticos sistémicos é indicado sobretudo nos casos com envolvimento do ouvido médio ou infeções profundas, devendo basear-se em te**es de suscetibilidade dada a crescente resistência dos microrganismos, nomeadamente *Pseudomonas* e *Enterococcus* (Blanchard et al., 2025; Kim et al., 2022). Protocolos que limitem o uso excessivo de fluoroquinolonas são essenciais para a contenção da emergência de cepas multirresistentes.
A cirurgia com laser de dióxido de carbono tem sido utilizada com sucesso em casos crónicos, permitindo um melhor controlo do tecido proliferativo e reduzindo a morbidade pós-operatória (Harvey, 2022). Procedimentos tradicionais, como ressecção do canal auditivo externo, são reservados para situações irreversíveis.
Terapias Inovadoras
Soluções ácidas eletrolisadas têm surgido como alternativa antibacteriana e anti-inflamatória eficaz, sem recurso aos antimicrobianos tradicionais, contribuindo para a redução dos riscos de resistência (López et al., 2022). Investigação em nanotecnologia, fagoterapia e agentes anti-biofilme são promissoras e poderão revolucionar o tratamento na próxima década (Lima et al., 2023).
Além disso, moléculas imunomoduladoras como o oclacitinib têm proporcionado resultados favoráveis em otites associadas a processos alérgicos e inflamatórios da pele auricular, facilitando o controlo da doença crónica (Harvey, 2022).
Prevenção e Gestão a Longo Prazo
A gestão eficaz da otite implica o controlo das causas primárias, como alergias, traumas e parasitismo. A higiene auricular regular, o uso controlado de medicamentos e o acompanhamento dermatológico são fundamentais para reduzir as recorrências (Harvey, 2022). Dietas hipoalergénicas e terapias imunoterapêuticas complementam o tratamento dos casos atópicos (Tokajian et al., 2022).
Conclusão
Nos últimos dez anos, o diagnóstico e tratamento da otite canina evoluíram significativamente, incorporando métodos diagnósticos tradicionais e avanços moleculares, assim como terapias tópicas inovadoras e técnicas cirúrgicas modernas, promovendo melhoria na qualidade de vida dos cães afetados. A atenção à resistência antibiótica e ao controlo das comorbilidades é essencial para o sucesso terapêutico.
Bibliografia;
Blanchard, B., Turner, L., & Moreau, M. (2025). Genomic and phenotypic characterisation of Pseudomonas aeruginosa isolates from canine otitis externa reveals high-risk sequence types identical to those found in human nosocomial infections. Frontiers in Microbiology, 16(2), 1526843.
Harvey, R. (2022). A review of recent developments in veterinary otology. Veterinary Sciences, 9(4), 161.
Kim, D., Lee, S., & Park, H. (2022). Antibiotic resistance and species profile of Enterococcus species in dogs with chronic otitis externa. Animals (Basel), 12(21), 2839.
Lima, E., Rodrigues, M., & Silva, T. (2023). Pseudomonas spp. in canine otitis externa. Veterinary Medicine and Science, 9(5), 1024–1036.
López, M., García, P., & Sánchez, L. (2022). Efficacy of controlled-flux electrolyzed acidic solution in dogs with otitis externa. Veterinary World, 15(5), 1203–1210.
Nuttall, T., Smith, J., & Brown, A. (2017). Evaluation of a single-administration otic solution containing florfenicol, terbinafine and mometasone furoate for canine otitis externa. Veterinary Dermatology, 28(6), 596–e144.
Silva, A., Moreira, F., & Costa, V. (2025). Genomic characterization of Pseudomonas aeruginosa from canine otitis highlights the need for a One Health approach to this opportunistic pathogen. PLoS ONE.
Tokajian, S., Azar, G., & Saleh, N. (2022). Multiplex cytokine analyses in ear canals of dogs suggest involvement of IL-8 chemokine in atopic otitis and otodectic mange—preliminary results. Veterinary Sciences, 9(2), 61.
Treviño, M., Martínez, R., & López, A. (2018). A randomized placebo-controlled trial of the efficacy and safety of a terbinafine, florfenicol and betamethasone topical ear formulation in dogs for the treatment of bacterial and/or fungal otitis externa. BMC Veterinary Research, 14(1), 265.