11/05/2026
Atiraram-na ao Atlântico no meio da noite. Na manhã seguinte, um pescador minhoto encontrou-a viva depois de onze horas à deriva em águas geladas — agarrada a um pedaço de madeira com tanta força que tiveram de o serrar para libertar o seu maxilar.
O veterinário disse que nunca tinha visto nada igual.
Aconteceu ao largo da costa norte de Portugal no final de setembro. Domingos, pescador de sessenta e dois anos com trinta naquelas águas, saiu ao amanhecer entre o nevoeiro a verificar as armadilhas. Às seis e quarenta e cinco viu algo a flutuar a duzentos metros. Pensou que eram destroços da tempestade. Então a forma mexeu-se.
Era uma labradora preta. Uns vinte e dois quilos. O pelo encharcado colado ao corpo, mal à superfície. Já não nadava — agarrava-se a uma tábua de cais partida de pouco mais de um metro. Não descansando sobre ela. Agarrada. O maxilar fechado à volta da madeira com tanta força que os dentes tinham penetrado na superfície. Uma pata dianteira encaixada. O resto do corpo a arrastar na água gelada.
Os olhos abertos. Distantes. O corpo a tremer em espasmos contínuos.
Domingos manobrou o barco com cuidado. Quando se inclinou para a levantar percebeu que ela fisicamente não conseguia largar a madeira — os músculos do maxilar tinham bloqueado completamente. Em vez de forçar e partir-lhe o maxilar, usou uma serra para cortar a tábua e subiu-a para o barco com o pedaço de madeira ainda entre os dentes.
A labradora mal reagiu. Simplesmente continuou a morder.
Nessa tarde as câmaras de segurança do porto mostraram o que tinha acontecido. Às nove e quarenta e um da noite anterior, uma embarcação de recreio parou a vários quilómetros da costa. Duas pessoas atiraram à água um objeto escuro que se debatia.
Esse objeto era ela.
A temperatura da água nessa noite: onze graus. Tinha derivado quase dez quilómetros.
Na clínica, mesmo sedada, a cadela continuava a não largar a madeira. A doutora Filomena Costa demorou quase quatro minutos depois da sedação para separar os dentes da tábua. Encontraram vários dentes rachados, lacerações profundas nas gengivas e mais de vinte lascas incrustadas nas patas. Hipotermia severa, lesão renal, complicações pulmonare