31/05/2026
𝐄𝐧𝐭𝐫𝐞 𝐚 𝐟𝐮𝐭𝐢𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐞 𝐨 𝐚𝐛𝐚𝐧𝐝𝐨𝐧𝐨
Há cerca de dois anos fomos surpreendidos pela reação a uma publicação que colocámos sobre um gatinho nosso para adoção. Nunca tínhamos visto nada assim.
Comentários, mensagens, pessoas a querer “reservar”, perguntas atrás de perguntas sobre se ainda estava disponível. Tudo isto num ápice.
Mas havia um detalhe curioso no meio daquela enxurrada de interesse: quase ninguém queria realmente saber quem era o Valentim.
Poucos perguntavam pelo feitio, pela energia, pela adaptação, pelo tipo de família que precisaria ou sequer pelo que signif**a viver anos com um gato bebé cheio de intensidade.
O foco estava na aparência.
O Valentim era um gatinho cinzento azulado, exatamente dentro daquele tipo de estética que faz muita gente perder a cabeça. O “gato bonito”. O gato que leva pessoas a pedir “quero um igual ao da foto”.
Só que o Valentim não é uma fotografia.
Tanto se encosta para dormir como, no minuto seguinte, ferra o dente. Ainda ontem a adotante disse que ganha uma dentada nova do Valentim todos os dias. É um gato exigente, intenso, impulsivo e com uma energia que nem toda a gente consegue gerir.
E a pergunta que f**a é: quantos daqueles adotantes entusiasmados o iriam devolver quando percebessem que o gato da fotografia mordia, exigia paciência, dava trabalho e não existia para corresponder à fantasia que tinham criado?
Porque muita gente não procura propriamente um animal. Procura aquele tipo de gato, aquela cor, nada mais.
Depois descobrem que os animais têm personalidade própria, limites, manias, comportamentos difíceis e necessidades.
Enquanto isso, tantos gatos adultos, supostamente comuns, idosos ou menos apelativos (para certas cabecinhas) continuam anos à espera de alguém que os veja para lá da aparência.
O Valentim acabou por mostrar uma realidade desconfortável: há muita gente apaixonada pela ideia de ter um certo tipo de gato, mas muito menos gente preparada para amar o animal. E o problema persiste. Todos os dias vemos publicações com comentários e pedidos deste teor.