18/05/2026
Querido corpo,
Hoje está a ser difícil olhar para ti com gentileza. Voltei a reparar em cada detalhe que quero mudar, em cada parte que aprendi a criticar, a esconder ou a controlar. E sinto-me cansada desta guerra constante entre aquilo que és e aquilo que eu acho que deves ser.
Estou há anos presa nos extremos, entre o controlo e o descontrolo, a restrição e a compulsão, o “agora vou conseguir” e a culpa esmagadora de sentir que falhei outra vez.
São demasiados anos a acreditar que a minha felicidade, a minha confiança e o meu valor estão dependentes da tua aparência.
E no meio disso tudo, esqueço-me de ti enquanto corpo.
Corpo que vive, que sente, que me aguenta (ou vai aguentando), que me carrega todos os dias, mesmo quando eu sou dura e crítica.
Tu nunca foste o inimigo, nem mesmo quando te culpei, quando te escondi, quando achei que só viveria plena depois de emagrecer.
Estou há anos a lutar contigo como se o fosses, e mesmo assim tu estás sempre aqui, a carregar-me e a proteger-me, mesmo nos dias em que te trato com violência disfarçada de “disciplina” e autocuidado.
Não sei amar-te totalmente. Não sei aceitar-te como és.
Não sei e não consigo.
Há dias, como o de hoje, em que o espelho continua a doer, em que a comparação, a vergonha e a vontade de desaparecer falam mais alto.
Sei que a cura não começa no amor, mas com o fim da guerra. Só ainda não sei como acabar com ela.
Deveria deixar de te castigar por existires exatamente como existes, perfeito dentro das tuas imperfeições. Porque se existo eu, é porque tu existes tal como és.
Porque, afinal, tu és a minha casa. E eu estou cansada de viver em guerra dentro dela.
Mas ainda não sei como chegar até aí.
E hoje o desconforto tomou conta de mim.
Peço-te que, mais uma vez, possas ser generoso comigo e aguentar mais um mau dia de imagem corporal 🤍
Amanhã será um dia melhor ☀️