14/11/2016
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A Selma foi adoptada há cerca de seis meses na União Zoófila e ontem foi devolvida. Hoje encontramo-la assim na boxe: incapaz de olhar-nos nos olhos, como se tivesse cometido alguma falta grave, algum crime. Queríamos que entendesse que é inocente.
Falemos da Selma, acolhida na União Zoófila há cerca de um ano após ter sido encontrada numa fábrica com leite encaroçado nas maminhas.
Parecia ter sido mamã e supusemos que alguém lhe tivesse levado as crias.
Falemos da Selma, já na União Zoófila, mas incapaz de confiança. Foi preciso mostrar-lhe todos os dias que estava entre amigos.
Inicialmente, a Selma confiava apenas num brinquedo que carregava nos dentes e junto do qual se enrolava para dormir.
Foi através do brinquedo, da br**cadeira, que, passo-a-passo, conquistámos a confiança da Selma.
A Selma fez-se uma cadelinha de colo, sim, uma amiga que nos pedia que a abraçássemos. Sem medo, finalmente.
Falemos da Selma, adoptada por quem teve tempo para conhecê-la e parecia ligada a ela. (A Selma estava seguramente ligada a quem a adoptou.)
Falemos da Selma, já em casa da adoptante, em fotos no sofá, na cama, ao colo, muito abraçada e beijada. Era, diziam-nos, a 'rainha da casa'.
Falemos da Selma, que fez xixi dentro de casa, que apanhou e roeu peças de roupa da adoptante.
Mas era ainda engraçado. Era ainda uma gracinha que o fizesse nos dois primeiros meses.
Falemos da Selma, que deixou de aparecer a dar e receber abraços nas fotos amplamente divulgadas (e agora apagadas).
Falemos da Selma, que entretanto deixou de ser a rainha da casa e passou a ser apenas um problema.
Que não tinha arcaboiço para lidar com a Selma, disse-nos, finalmente quem tanto a amara e tanto se rira com as primeiras diabruras.
Que não tinha dinheiro para treiná-la e que não conseguia "fazer nada com ela", continuou.
Tratando-se de um cão adoptado na UZ, oferecemos ajuda, oferecemos treino.
Que não, que tinha mudado de casa, argumento até então nunca invocado.
Falemos da Selma, devolvida ontem e incapaz de olhar-nos directamente nos olhos hoje.
Falemos da tristeza da Selma. Tinha sido difícil conquistá-la antes. E agora, como será?
E falemos agora de nós. Nós é que não temos, nem queremos alguma vez ter, arcaboiço para lidar com quem desrespeita assim os cães e gatos ao nosso cuidado.
Os cães e gatos em abrigos não são coitadinhos à espera de almas que querem sentir-se caridosas e depois logo se vê.
Aos cães e gatos em abrigos deve-se respeito quanto mais não seja pelo tanto que já sofreram antes e pela maneira corajosa como lidam todos os dias com a adversidade.
Sim, esta não é a primeira devolução, nem será a última, mas nem por isso, por já estarmos à espera, nos causa menos asco. Asco, sim. Puro asco.
A Selma está de novo disponível para adopção na União Zoófila.
Por enquanto, fixa a parede da boxe e encolhe-se, como se tivesse cometido uma falta grave.
A Selma é inocente. Falta grave é a que mancha o carácter de quem br**ca com os sentimentos dos outros, humanos ou outros animais, como se fossem menos importantes do que os seus.
Partilhem, amigos! Para que a Selma encontre, de facto, uma família que a mereça e saiba que entre um cão de carne e osso e um brinquedo não há qualquer semelhança.
http://www.portugalzoofilo.net/caes/cao.jsp?animal_id=10204&origem=serp&rs_offset=0