25/11/2025
Sou motoboy há 6 anos.
Levo comida, remédio, documento, encomenda.
Tudo o que couber no baú.
Sol, chuva, trânsito, madrugada.
A moto é minha ferramenta. Meu ganha-pão. Minha parceira.
Mas nunca, NUNCA, pensei que ia levar um cachorro.
Foi numa terça à tarde.
Entrega de ração num bairro afastado.
Casa simples. Portão verde. Quintal cheio de cachorros.
Toquei a campainha.
Uma moça atendeu.
"Oi! É a ração? Deixa aí, por favor."
Coloquei a caixa no chão.
Ela assinou no app.
"Obrigada! Esses bichinhos tavam esperando."
Eu ia embora.
Mas então ele apareceu.
Um filhotinho.
Vira-lata. Caramelo. Orelhas caídas.
Saiu correndo do portão.
Direto pra mim.
Ele não latiu. Não pulou.
Apenas sentou na frente da minha moto.
Olhando pra mim.
Com aqueles olhos que dizem tudo sem falar nada.
"Opa, amigão, você tem que f**ar aí dentro", falei, tentando afastá-lo.
Mas ele não saiu.
Ficou ali. Me olhando.
A moça veio até o portão.
Olhou pra mim. Olhou pro cachorro.
E disse algo que mudou tudo:
"Acho que ele quer ir com você."
Eu ri.
"Não, moça. Eu trabalho o dia inteiro na moto. Não tenho como cuidar de cachorro."
Ela sorriu.
"Eu acolho abandonados aqui há 5 anos. E nunca vi um cachorro escolher alguém assim. Ele te escolheu."
Olhei pro filhotinho.
Ele continuava ali. Sentado. Esperando.
Como se soubesse que ia comigo.
"Moça, eu..."
"Leva ele. Pelo menos por hoje. Se não der certo, você traz de volta."
Eu suspirei.
Peguei ele no colo.
Coloquei dentro do baú.
"Só por hoje, tá? Amanhã eu te trago de volta."
Liguei a moto.
Ele não chorou. Não tentou pular.
Apenas ficou ali. Quietinho.
Como se sempre tivesse andado de moto.
Fiz mais 8 entregas naquela tarde.
E ele foi comigo em todas.
Quando chegava num lugar, eu abria o baú.
Ele colocava a cabecinha pra fora.
As pessoas riam.
"Que fofo! Ele é seu?"
"Não... quer dizer... acho que sim?"
No fim do dia, voltei pra casa.
Coloquei ele no chão.
"Tá bom. Você f**a hoje. Mas amanhã a gente resolve."
Dei banho nele na mangueira.
Dei comida (arroz com ovo, foi o que tinha).
E ele comeu como se nunca tivesse comido na vida.
À noite, fui dormir.
Ele deitou na porta do quarto.
Como se estivesse me protegendo.
No dia seguinte, acordei cedo.
Ia devolver ele.
Mas quando peguei a moto pra sair...
Ele já tava esperando do lado.
Olhando pra mim.
Rabo abanando.
Como se dissesse:
"A gente não vai trabalhar?"
E foi aí que eu entendi.
Ele não queria uma casa.
Ele queria um parceiro.
Alguém pra andar junto.
Alguém pra não f**ar sozinho.
Alguém como eu.
Porque eu também tava sozinho.
Trabalhava o dia inteiro. Sozinho.
Almoçava na moto. Sozinho.
Voltava pra casa. Sozinho.
E de repente...
Não tava mais.
Hoje, 8 meses depois, ele vai comigo em toda entrega.
Coloquei o nome de Frete.
Porque ele veio numa entrega. E virou o frete mais valioso da minha vida.
Ele tem um espacinho no baú.
Com cobertorzinho. Potinho de água.
As pessoas já conhecem.
"Opa! Cadê o Frete?"
E ele coloca a cabecinha pra fora, todo orgulhoso.
Tem cliente que pede entrega só pra ver ele.
Tem porteiro que guarda petisco.
Tem criança que espera a gente passar só pra acenar.
E sabe o mais engraçado?
Desde que ele veio...
Meu movimento aumentou.
Porque agora as pessoas me conhecem.
"Aquele motoboy do cachorrinho."
E pedem entrega comigo.
Porque sabem que vem com um sorriso a mais.
Mas o melhor não é isso.
O melhor é que eu não volto mais pra casa sozinho.
Toda vez que termino o expediente...
Olho pro retrovisor.
E lá tá ele.
Cabecinha balançando com o vento.
Orelhas voando.
Olhos brilhando.
Feliz. Livre. Junto.
E eu penso:
Eu achei que ia só entregar ração naquele dia.
Mas na verdade...
Fui eu que recebi uma entrega.
Porque Frete não é só um cachorro.
Ele é companhia.
É motivo pra acordar.
É alguém que me espera.
É alguém que escolheu f**ar.
Mesmo quando eu disse que não dava.
Hoje, além de motoboy, sou tutor.
E ganhei o frete mais valioso da vida.
Não foi uma entrega que eu fiz.
Foi uma entrega que recebi.
🏍️🐾💛