04/02/2016
MEDICINA VETERINÁRIA, GRATUIDADE E POLARIZAÇÃO
Nesta última semana fomos assolados por uma grande, e passional, discussão gerada pela proibição pelo Conselho de atendimento (pretensamente) gratuito oferecido por Médico Veterinário. A grande repercussão parece ter gerado uma grande polarização entre Médicos Veterinários (na sua maioria a favor do Conselho), Tutores de Animais e membros da população (contra o Conselho) e dos estudantes de Medicina Veterinária (divididos). Como tenho pessoas na minha timeline em todas essas posições resolvi tentar aclarar um pouco a situação.
Muito se falou da questão do atendimento gratuito – não acredito que este seja o cerne da questão. Explico; todos nós que trabalhamos como clínicos (gerais ou especialistas) fazemos “caridade” no nosso dia a dia; cobramos mais barato (ou não cobramos em alguns casos), ajudamos animais abandonados, doamos medicamentos, doamos nosso tempo e conhecimento em campanhas de castração, campanhas de conscientização, etc.. Sim, escolhemos a profissão pq amamos animais – dedicamos nossas vidas a curar e prevenir doenças, diminuir o sofrimento e garantir qualidade de vida aos nossos pacientes. O incômodo, por parte dos Médicos Veterinários, me parece estar relacionado a certos “gatilhos” (disparados pelo fato) que sinalizam a falta de ética de certos “profissionais” (e alguns Hospitais e certas Clínicas) e que estamos acostumados a enfrentar no nosso dia a dia – internações desnecessárias, pedidos inapropriados de exames, execuções de procedimentos inadequados por profissionais não habilitados (retirada mecânica de tártaro, etc...) que mancham a reputação de profissionais sérios e competentes (a maioria). Ora, todos sabemos que consultas gratuitas virão acompanhadas de exames e procedimentos que tem custo muito superior ao da própria consulta – é o não cobrar entrada mas cobrar consumação – é desonesto para com a população carente atraída pela promessa de gratuidade e com outros profissionais que cobram honestamente por seus serviços.
A outra questão é a auto-promoção. O “serviço” havia sido divulgado previamente nas redes sociais – se a questão é auxiliar a população carente pq divulgar pela internet (a que a população alvo não teria acesso)? Todos conhecemos o Código de Ética e sabemos das limitações impostas – não seria todo o ocorrido o desejado desde o princípio?
Nossa profissão é fantástica – é sim – entretanto Médicos Veterinários se suicidam 4 vezes mais que o restante da população (e 2 vezes mais que outros profissionais de saúde) – sofremos intensamente por Burnout e Fadiga por Compaixão. No Brasil temos um alto índice de profissionais que desistem da profissão. Algumas das questões relacionadas com este problema perpassam pela falta de valorização da profissão pelos Tutores de Animais e a população em geral, a cultura da “olhadinha”, as expectativas desmedidas, a falta de respeito com os limites pessoais do Médico Veterinário, a baixa remuneração, as cargas horárias desmedidas. É importante que os Tutores e a população em geral compreendam: nos dedicamos, estudamos muito e continuamente, nos esforçamos (muitas vezes desmedidamente) e merecemos ser respeitados e devidamente recompensados pelo nosso trabalho. Fazemos COM AMOR mas não apenas POR AMOR.
Um abraço a todos!
Alexandre Bastos Baptista