O amor pelo cachorro no meu coração

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Ninguém apareceu no velório da Dona Elza. Só os funcionários da funerária e uma vizinha que mal a conhecia. O caixão sim...
16/04/2026

Ninguém apareceu no velório da Dona Elza. Só os funcionários da funerária e uma vizinha que mal a conhecia. O caixão simples, o salão vazio, o silêncio pesado. No bairro, já se comentava: — Foi triste, viu? Morrer assim, sem família, sem ninguém...

Mas quem disse que ela estava sozinha?

No momento em que o coração dela parou, um novo pulso começou a bater em outro lugar. Um lugar sem dor, sem frio, sem fome. Dona Elza despertou num campo imenso, banhado por uma luz dourada que parecia ter cheiro de infância e som de felicidade.

Ela nem teve tempo de entender. Porque logo foi cercada. Primeiro vieram os miados. Depois, os latidos. Depois, um tropel de patas correndo em sua direção. Eles vinham de todos os lados, numa alegria explosiva: os que ela cuidou, os que ela resgatou, os que ela enterrou com dor e amor.

Rex, Totó, Fumaça, Belinha, Juju, Caramelo, Fred... era uma multidão de peludos correndo para ela. Subiam no colo, lambiam suas lágrimas de alegria, se enroscavam em suas pernas como se o tempo não tivesse passado. A cada toque, ela lembrava de um nome, de uma história, de um dia chuvoso, de um curativo feito com gaze e carinho.

E assim ela entendeu: aquele era o Céu dela. A recompensa. O paraíso construído com cada pote de água, cada ração dividida, cada noite mal dormida com um animal doente no colo.

Enquanto os vivos balançavam a cabeça com pena, ela chorava de gratidão. Não por ter partido — mas por ter sido recebida com uma festa que rainha nenhuma jamais teve. Porque ali, naquele céu feito de pelos, patas e amor, ela não era a “louca dos bichos”. Ela era a guardiã dos esquecidos. A mãe dos que ninguém quis. E o amor deles, agora, era o trono onde ela ia reinar pela eternidade.

Eu levei ele enrolado no cobertor azul que ele gostava. O mesmo cobertor que ele puxava pra fazer ninho quando tinha tro...
15/04/2026

Eu levei ele enrolado no cobertor azul que ele gostava. O mesmo cobertor que ele puxava pra fazer ninho quando tinha trovão. O mesmo que ele amassava com o focinho até achar o “jeito certo” de deitar.

E talvez seja isso que mais dói agora: eu tentei levar um pedacinho de casa pra ele, como se casa fosse capaz de impedir a morte.

A clínica era simples. Daquelas populares, com ventilador fazendo barulho, balcão de vidro, recepcionista cansada e uma TV ligada sem ninguém olhar. Eu cheguei com ele no colo, e meu corpo tremia tanto que mal consegui assinar a ficha.

Falaram “internação”.
Falaram “risco”.
Falaram “vamos tentar estabilizar”.

E eu só ouvia o nome dele na minha cabeça, repetindo, repetindo, repetindo. Como se eu dissesse o nome certo, do jeito certo, Deus entendesse e devolvesse ele pra mim.

Ele estava consciente. E isso é uma crueldade que pouca gente entende.

Porque ele me olhava.

Me olhava de um jeito que parecia pedir desculpa por estar doente. Como se eu tivesse comprado ele num dia de feira e ele tivesse vindo com defeito, e agora se sentisse culpado por me dar trabalho.

E ele não era assim.
Ele sempre foi alegria.

Era aquele cachorro que fazia festa por um pão velho.
Que seguia a gente pela casa só pra estar perto.
Que dormia atravessado na cama e ainda brigava pelo travesseiro.
Que parecia entender o mundo inteiro, menos a maldade.

Quando a veterinária colocou ele no soro, ele virou o rosto procurando minha mão.
Eu enfiei os dedos entre as grades e segurei a pata dele com cuidado, com medo de quebrar o tempo.

E eu prometi:

— A gente vai pra casa hoje. Eu te juro. Vou fazer tua caminha, vou deixar a luz baixinha, vou te dar água geladinha… só não me deixa.

Ele abanou a ponta do rabo. Fraquinho. Mas abanou.
E eu me agarrei nisso como se fosse um “sim”.

Eu saí por dez minutos. Só dez.
Fui tomar um café ruim no copinho, porque meu corpo tava desmoronando. E eu pensei “vou voltar mais forte, ele precisa de mim forte”.

Quando voltei, senti antes de ver.

A sala estava quieta demais.

A veterinária não me chamou pelo nome dele. Ela me chamou pelo meu.
E eu já soube.

Eu entrei e vi ele deitado. Do mesmo jeito. Do mesmo cobertor.
A língua pra fora, como f**ava depois dos passeios.
As patinhas com algodão.
O peito parado.

Eu abracei ele e o mundo pareceu pequeno. Pequeno demais pra caber aquela falta.

E o pior é que ele ainda tava morno.
Morno.

Como pode alguém estar tão presente e tão ausente ao mesmo tempo?

Hoje eu voltei pra casa carregando só o cobertor.
E juro que nunca pensei que tecido pudesse pesar tanto.

Tem gente que acha exagero.
Mas quem já perdeu um cachorro que era família sabe.

A casa f**a intacta.
Mas por dentro… a gente vira uma casa vazia também.

Era hora do almoço e a rua estava cheia de barulho. Gente entrando e saindo das lojas, moto passando, buzina curta. Eu e...
15/04/2026

Era hora do almoço e a rua estava cheia de barulho. Gente entrando e saindo das lojas, moto passando, buzina curta. Eu estava dentro do carro, parado no sinal, quando vi a cena no meio-fio.

Ele estava sentado ali, encostado no poste, com uma marmita aberta no colo. Comia devagar, como quem não tem pressa nem muito o que escolher. Arroz, feijão e alguma coisa misturada no meio. Nada sobrando.

Ao lado dele, sentado bem próximo, um cachorro caramelo. Magro, mas atento. Não pedia. Não se mexia. Só esperava.

Quando o homem terminou a primeira parte da marmita, fechou a tampa por um segundo, pensou, depois abriu de novo. Separou a comida com cuidado, usando a própria tampa como prato improvisado. Empurrou devagar pro cachorro.

O cachorro não avançou. Olhou primeiro pra ele. Só depois comeu.

Ninguém em volta parecia notar. Era só mais um homem almoçando na rua. Mas tinha algo naquele gesto que desacelerava tudo. Ele não estava dividindo sobra. Estava dividindo o que tinha contado pra si mesmo.

Depois soube — porque essas histórias sempre chegam — que o cachorro tinha aparecido ali fazia uns dias. Que f**ava esperando. Que seguia. Que não aceitava comida de qualquer um.

Ele não falou de dó.
Não falou de pena.
Falou que “ninguém almoça bem sozinho”.

Quando o sinal abriu, eu segui com o carro. Mas a imagem ficou: uma marmita simples, um meio-fio quente, e duas vidas fazendo do pouco algo suficiente.

Às vezes, amor não é resgate.
É sentar, dividir e f**ar. ❤️

Dona Teresa passou os últimos 8 dias no leito 203, setor de clínica geral, hospital público.Internada por uma infecção f...
15/04/2026

Dona Teresa passou os últimos 8 dias no leito 203, setor de clínica geral, hospital público.

Internada por uma infecção forte, daquelas que o corpo velho não aguenta calado.
Não recebia visitas. Só os médicos, os técnicos, os voluntários do refeitório.
“Ela tem família?”, perguntaram.
“Diz que tem, mas ninguém veio ainda”, responderam.

Mas quem conhecia Dona Teresa sabia:
os que ela chamava de família não estavam nos cadastros do SUS.
Estavam lá fora.

Dona Teresa vivia sozinha numa casinha de muro baixo, no fim de uma vila sem asfalto.
Tinha uma aposentadoria modesta e uma rotina precisa:
cozinhava arroz com pescoço de frango, recolhia sacos do açougue, separava remédio triturado, enchia garrafas com água limpa.

Para quem?

Para eles.

Os cães do bairro sabiam o horário.
Os gatos já dormiam embaixo do fogão.
O cavalo solto da esquina encostava o focinho no portão todo dia, pontual.
Dona Teresa nunca negava. Nem nos dias em que faltava pra ela.

Na última semana, estranhamente, os animais começaram a rondar o hospital.
Ninguém entendeu.
Primeiro foi um vira-lata preto que dormia na entrada do pronto-socorro.
Depois dois gatos siameses foram vistos no estacionamento, olhando fixo pras janelas.
Na noite de sábado, uma funcionária encontrou quatro cães deitados enfileirados ao lado do gerador, em silêncio.

No domingo, antes do sol nascer, Dona Teresa partiu.

O monitor desligou.
Os fios foram retirados.
O corpo coberto com um lençol limpo.
Silêncio.

Mas no corredor do hospital, o silêncio também era outro.

Funcionários da limpeza pararam.
Um técnico de enfermagem abriu a porta de leve.
E ali, encostados um ao lado do outro, estavam sete cães e três gatos.
Em fila.
Deitados, como se soubessem.

Ninguém os chamou.
Ninguém os expulsou.

Eles f**aram ali por minutos, quietos.
Um dos cães lambeu a lateral da maca.
O menor dos gatos se enroscou no canto da parede.
E então, um a um, foram saindo.
Sem latido. Sem miado.

Quem viu, saiu com os olhos cheios.

Porque Dona Teresa pode ter partido sem herdeiros.
Mas deixou amor espalhado em cada rabo abanado, cada ronronar manso, cada animal que aprendeu com ela que ainda existem humanos que valem a pena.

Na ficha do hospital ficou escrito:
Paciente sem acompanhante.
Mas quem estava lá sabe:
Ela não partiu sozinha.

Ela estava sentada no último banco do ponto de ônibus, longe da sombra boa, porque ali cabia melhor o que ela precisava ...
14/04/2026

Ela estava sentada no último banco do ponto de ônibus, longe da sombra boa, porque ali cabia melhor o que ela precisava segurar. No colo, enrolado numa toalha fina já desbotada, um cachorro médio, magro, respirando devagar.

O ônibus atrasava.
Sempre atrasa.

Ela conferia o relógio velho no pulso, mas não demonstrava pressa. A pressa f**ava toda guardada por dentro. Com a mão livre, ajeitava a toalha de vez em quando, cobrindo melhor as costas do cachorro quando o vento batia.

Alguém perguntou se ele estava doente.

“Tá fraco”, respondeu.
Sem drama. Sem explicação longa.

Disse que ele tinha aparecido no quintal fazia uns dias. Que não conseguiu enxotar. Que quando tentou sair, ele levantou, deu dois passos e caiu. Então ela trouxe pra dentro. Água. Comida. Agora, estava levando pra ver se alguém ajudava.

Não tinha carro.
Não tinha dinheiro pra corrida.
Só tinha aquele ônibus e o cuidado de não deixar o corpo dele esfriar.

O cachorro não chorava. Não se mexia muito. Só encostava o focinho na dobra do braço dela, como quem entende que dali não vai cair.

Quando o ônibus finalmente chegou, ela entrou com cuidado, pedindo licença sem falar. Sentou perto da porta. Manteve o cachorro firme, protegendo das pessoas e dos solavancos.

Talvez não desse em nada.
Talvez desse trabalho.
Talvez desse gasto.

Mas ali, naquele banco duro, ficou claro: quando alguém escolhe cuidar, mesmo sem ter quase nada, aquilo vira tudo o que importa.

Dinheiro resolve caminho.
Mas é o amor que sustenta o peso quando não existe atalho. ❤️

Perdi tudo em menos de seis meses.Primeiro veio a demissão. Depois o despejo. Depois as pessoas.As que diziam “tamo junt...
14/04/2026

Perdi tudo em menos de seis meses.
Primeiro veio a demissão. Depois o despejo. Depois as pessoas.
As que diziam “tamo junto” foram sumindo como se eu fosse uma doença que pega.
E eu fui f**ando… com uma mochila, um cobertor velho e uma raiva que não cabia no peito.

Passei a dormir onde dava.
Às vezes na rodoviária, às vezes atrás do mercado, às vezes na escadaria de uma igreja que fecha cedo.
O medo de madrugada é um bicho também — ele late dentro da gente.
A gente não dorme, só apaga um pouco.
E qualquer barulho parece ameaça.

Foi num fim de tarde, na porta de um terminal de ônibus, que vi ele.
Um cachorro caramelo, magro, com a costela aparecendo, andando devagar entre a multidão como se tivesse vergonha de existir.
O povo desviava. Alguns empurravam com a perna.
Ele só baixava a cabeça e seguia, sem reclamar.

Eu tinha um salgado amanhecido no bolso.
Joguei um pedaço no chão. Ele parou na hora.
Ficou olhando, desconfiado, como se achasse que era pegadinha.
Depois comeu rápido, com o corpo todo duro.

No outro dia ele apareceu de novo.
No mesmo horário. No mesmo lugar.
No terceiro, ele chegou mais perto… e sentou do meu lado.
Não pediu nada. Não fez festa.
Só ficou ali, colado, como se dissesse: “Eu também não tenho ninguém.”

Hoje ele dorme comigo do lado do ponto final, perto de um muro cheio de cartaz rasgado.
Quando venta, ele encosta mais.
Quando alguém passa falando alto, ele se levanta primeiro e f**a na frente.
E quando eu acordo me sentindo um lixo — fedendo a rua, com os olhos ardendo de chorar escondido — ele me olha como se eu fosse casa.

A gente ainda tá sem nada.
Mas agora eu tenho um nome que alguém espera.
E um coração batendo perto do meu.
Eu não sei se a vida vai melhorar.
Só sei que, pela primeira vez em muito tempo… eu não tô mais sozinho no mundo.

Quando ela chegou, a casa ainda não era minha.Eu tinha acabado de me mudar. Primeiro aluguel, poucas coisas, muito medo....
14/04/2026

Quando ela chegou, a casa ainda não era minha.
Eu tinha acabado de me mudar. Primeiro aluguel, poucas coisas, muito medo.
A geladeira fazia mais barulho que os vizinhos.
A mesa era improvisada, a cama era colchão no chão, e o silêncio… esse era o mais difícil.

Nos primeiros dias, eu deixava a TV ligada só pra ter algum som.
Dormia de luz acesa, com o corpo virado pra porta como quem espera um susto.
Tinha dias que eu chorava só por não saber se tava dando conta.
Foi numa dessas noites que a mensagem chegou:
— “Tem uma cachorra recém-operada que precisa de um lar temporário por 10 dias. Pode ser aí?”

Dei uma risada seca.
Mal tava conseguindo cuidar de mim.
Mas alguma coisa me fez digitar “pode sim”.

Ela chegou assustada, com a barriga raspada e uma carinha de quem pedia desculpa por estar viva.
Se encolheu num canto, não latiu, nem mexeu na ração.
Mas à noite, quando apaguei a luz, ouvi um barulhinho de pata no chão.
Ela deitou perto da minha cama e suspirou.
Foi o som mais bonito que eu ouvi naquela semana.

Nos dias seguintes, ela foi se espalhando pela casa.
De manhã, me esperava na porta do banheiro.
Quando eu sentava no computador, ela vinha e deitava encostada na minha cadeira.
Fazia barulho quando eu esquecia de comer.
F**ava quieta quando eu tava triste.
E pulava de leve quando ouvia a chave da porta girar.

Dez dias viraram quinze.
Depois um mês.
Quando mandaram mensagem pra buscar, eu já sabia.

Respondi só:
— “Ela já tá em casa.”

Tirei essa foto hoje, antes da aula.
Ela tava sentada igual gente do meu lado, como se dissesse: “anda, vai dar tudo certo”.
E deu.

Hoje a casa ainda é pequena.
A cama ainda é no chão.
Mas eu não tô mais sozinha.
Porque agora, quando volto, tem alguém me esperando.
E quando deito à noite, tem uma respiração tranquila no tapete, que me lembra:
“Você conseguiu.”

A enchente chegou de madrugada.Acordamos com o barulho das coisas batendo na parede e a água subindo pela cozinha.Não de...
13/04/2026

A enchente chegou de madrugada.
Acordamos com o barulho das coisas batendo na parede e a água subindo pela cozinha.
Não deu tempo de nada. Só de pegar minha mãe, o celular e correr.
O resto ficou: móveis, foto de casamento, o fogão novinho que comprei em 12 vezes.
E o cachorro.

O Bidu ficou pra trás.
A última imagem que tive dele foi correndo em volta do sofá, tentando escapar da água.
Gritei, voltei, procurei… mas a correnteza já tinha levado tudo.

Passei dias rodando os abrigos, perguntando, mostrando foto no celular.
As pessoas respondiam com pena, mas sem esperança.
“Esses bichos não resistem, moço...”
Mas eu conheço o Bidu.
Sabia que, se tivesse um jeito de sobreviver, ele ia achar.

Hoje cedo, meu telefone tocou.
Era o seu Jorge, um vizinho que tá ajudando no rescaldo da zona rural.
“Tem um cachorro aqui, meio acabado, mas parece o teu.”
Saí na hora.
Dei carona até pra esperança.

Chegando lá, levei uns segundos pra reconhecer.
Magro, com barro até nas orelhas, os olhos fundos.
Mas quando me viu, o corpo dele se acendeu.
As patas tremiam, a boca queria latir mas só saiu um choro seco.
Correu até mim, e eu me ajoelhei no barro sem nem pensar.

Abracei ele como quem segura o mundo.
Chorei, ele chorou também — com o corpo inteiro.
Naquela lama, no meio do nada, achei o que mais importava.
O resto pode vir depois: roupa, documento, casa nova.
Mas meu amigo tá aqui.
E é com ele que vou começar de novo.

Depois que o Rex se foi, a casa ficou grande demais.O silêncio ocupava tudo. Cada canto parecia lembrar o que não estava...
13/04/2026

Depois que o Rex se foi, a casa ficou grande demais.
O silêncio ocupava tudo. Cada canto parecia lembrar o que não estava mais ali. Então eu fechei as janelas, desliguei o mundo, pedi à vizinha que molhasse as plantas e fui embora. Não era coragem. Era fuga. Eu só precisava respirar longe da ausência que pesava no peito.

Voltei semanas depois, ainda desalinhado por dentro, tentando reaprender gestos simples: abrir a porta, acender a luz, existir ali de novo. No primeiro fim de tarde, ouvi um latido quase pedido de desculpa, vindo do quintal. Um som frágil, mas insistente. Fui ver.

Atrás dos vasos, tremendo mais de medo do que de frio, estava um filhote. Pequeno, ossudo, claramente cansado da vida antes da hora. Assustado, sim. Mas os olhos… os olhos eram firmes, atentos, como quem já tinha entendido demais e mesmo assim escolhia f**ar. Alguém tinha deixado ele ali. Sozinho. Como eu.

Peguei no colo. Ele não resistiu, não tentou fugir. Apenas se encaixou. Aquela noite, dormimos juntos, em silêncio, dividindo a mesma exaustão que não se resolve com palavras.

Na manhã seguinte, ele me seguiu pela casa inteira. Não latia, não pedia nada. Só estava. Sentou perto da porta enquanto eu lavava a louça, atento, como se estivesse cuidando de mim sem saber como.

Até que, em algum momento, ele atravessou a sala e se deitou exatamente no mesmo tapetinho onde o Rex costumava descansar.

Foi ali que eu chorei.

Não porque alguém estivesse ocupando um lugar.
Mas porque, pela primeira vez desde a despedida, eu entendi.

Não era substituição.
Não era esquecimento.
Era a vida encontrando um jeito delicado de continuar.

Antônio já teve uma vida com casa, esposa, filhos.Mas os caminhos da dependência o fizeram perder tudo — menos o coração...
13/04/2026

Antônio já teve uma vida com casa, esposa, filhos.
Mas os caminhos da dependência o fizeram perder tudo — menos o coração.
Na rua, ele aprendeu a sobreviver com o pouco que restava.
Um carrinho cheio de recicláveis. Uma barraca improvisada. E passos firmes, mesmo descalços.

Certo dia, debaixo do sol forte, ele viu uma cena que parou seus pés:
uma cadelinha magra, deitada na calçada quente, tentando amamentar seu único filhote.
Ninguém olhava.
Ninguém parava.
Mas ele parou.

Com mãos calejadas e voz baixa, se aproximou e disse:
“Vem comigo. Eu também sei o que é ser deixado pra trás.”

A mãe desconfiou no início, mas seguiu.
O filhote dormiu no colo dele a caminho da barraca.

Desde então, Antônio não anda mais sozinho.
Nem a fome, nem a rua, nem o cansaço tiraram dele a única coisa que ninguém conseguiu quebrar:
a capacidade de amar — mesmo quando o mundo te vira as costas.
Porque às vezes, quem menos tem... é quem mais oferece.

Hoje de manhã eu enterrei meu melhor amigo. E eu ainda tô com o cheiro do hospital grudado no meu corpo, como se o desin...
12/04/2026

Hoje de manhã eu enterrei meu melhor amigo. E eu ainda tô com o cheiro do hospital grudado no meu corpo, como se o desinfetante tivesse entrado na minha pele e decidido morar aqui.

Foi numa clínica 24h de bairro, dessas que f**am perto de UPA, com cadeira de plástico na recepção e gente cochilando encostada na parede. Eu cheguei correndo com ele no colo, tremendo, pedindo ajuda como quem pede ar. E no fundo eu ainda acreditava naquela mentira que a gente conta pra sobreviver: “vai dar tempo”.

Ele tava cansado. Muito cansado.

Meu cachorro sempre foi grande, forte, daqueles que fazem barulho até bebendo água. Mas ontem ele parecia pequeno. A cabeça tombada, o olhar procurando o meu rosto como quem diz “não me deixa”. E eu dizendo que não ia deixar. Repeti isso umas cinquenta vezes, igual uma oração desesperada:

— F**a comigo… f**a comigo… aguenta só mais um pouco.

A veterinária tentou tudo. Soro, remédio, oxigênio, monitor apitando. Um monte de fio, um monte de pressa… e mesmo assim era como se a vida estivesse escorrendo dele por algum lugar que eu não conseguia fechar.

E tem uma parte que eu não consigo parar de lembrar.

O jeito que ele respirava.

A cada puxada de ar parecia que o corpo dele tava pedindo permissão pra continuar. E eu ali, alisando a testa, falando o nome dele no ouvido, fingindo que isso era uma garantia de que ele ia voltar.

Em algum momento eu fui ao banheiro. Dois minutos. Talvez nem isso. Eu juro que foi rápido. Eu tava sem dormir, sem comer, com as pernas bambas.

E quando voltei… ele já tava diferente.

Sabe quando a sala f**a silenciosa de um jeito errado?

O monitor ainda estava ali, mas não fazia mais sentido. O corpo dele ainda estava quente, e essa parte é a que mais me destrói. Porque ele tava ali, quentinho, igual sempre foi, como se ainda fosse acordar a qualquer segundo. A língua um pouco pra fora. A pata com o algodão preso. E eu repetindo:

— Amor… mamãe/papai tá aqui… volta… por favor.

Eu segurei o rosto dele e senti que aquele era o peso mais familiar do mundo. E mesmo assim eu estava segurando uma despedida.

Dizem “é só um cachorro”.

Mas quem fala isso nunca teve uma alma que te espera na porta mesmo quando você não se aguenta nem por dentro. Nunca teve alguém que te acompanha sem perguntar se você merece. Nunca teve alguém que te ama no pior dia sem saber o motivo.

Ele foi a minha casa.

E hoje eu voltei pra uma casa que não me reconhece mais.

O tapete tá no lugar. O pote tá cheio. A coleira ainda pendurada. E eu andando pelos cômodos com um vazio que faz barulho.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu não teria ido ao banheiro. Eu teria segurado ele até o último segundo. Nem que fosse só pra ele ir ouvindo meu coração batendo junto do dele.

Eu perdi um cachorro, mas também perdi um pedaço de mim que não volta.

Era hora da saída. Criança correndo pra todo lado, lancheira esquecida, grito de mãe do portão.A faxineira vinha com doi...
12/04/2026

Era hora da saída. Criança correndo pra todo lado, lancheira esquecida, grito de mãe do portão.

A faxineira vinha com dois baldes cheios, tentando atravessar o corredor antes do sinal. Escorregou no próprio pano, o balde virou e espalhou sabão pelo chão.

Um menino quase caiu. A mãe gritou:
— Que absurdo! Quer machucar meu filho, é?

Ela ficou parada, com os olhos arregalados. Tentava falar, mas a voz não saía.

A coordenadora apareceu apressada:
— Dona Sônia, já falamos do horário da limpeza! Não pode no fim da aula!

Foi aí que uma professora segurou o braço dela:
— Tá tudo bem?

A faxineira engoliu seco, baixou os olhos.

— Me desculpa… É que eu não dormi. Passei a madrugada com meu cachorro na clínica. Ele tava vomitando sangue.
— O veterinário disse que pode ser envenenamento.
— Mas se eu faltasse hoje… eu não ia receber. E eu preciso pagar a segunda dose do remédio…

Ela se ajoelhou, começou a juntar o sabão com um pano velho, a mão tremendo.

A professora se abaixou com ela.

— Dona Sônia, larga isso agora. A senhora precisa ir. Eu cubro aqui.

A coordenadora ficou sem fala. A mãe que tinha gritado, baixou a cabeça.

No portão, o menino que quase escorregou disse baixinho:
— Tia… eu também tenho um cachorro. Espero que ele fique bom.

Ela sorriu de leve, com os olhos ainda cheios.
Saiu devagar, levando a mochila no ombro, como quem carrega o que realmente importa.

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