02/05/2021
PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A POLÊMICA COLEIRA DE CHOQUE E O ADESTRAMENTO.
CHOQUE É PUNIÇÃO?
Não, o uso do choque no adestramento pode ser punição, positiva ou negativa e também reforço, positivo ou negativo.
O QUE É PUNIÇÃO POSITIVA E NEGATIVA, E REFORÇO POSITIVO E NEGATIVO?
Punição positiva é quando o adestrador causa uma sensação ruim no cão como consequência de um comportamento indesejado para impedir, inibir ou reduzir esse comportamento. Se o cão não se sentir mal como consequência daquele comportamento, aquele comportamento não terá sido punido positivamente.
Punição negativa é quando o adestrador retira um direito, um benefício ou um prazer do cão como consequência de um comportamento indesejado para impedir, inibir ou reduzir esse comportamento. Se o cão se sentir mal com isso, a punição foi positiva. A punição negativa ocorre somente quando o cão perde o prazer, mas mantem seu estado normal de bem estar.
Reforço positivo é quando o adestrador causa uma sensação de prazer ao cão como consequência de um comportamento para incentivar e fortalecer esse comportamento.
Reforço negativo é quando o adestrador retira um castigo, ameniza um sofrimento, melhorando a condição do cão como consequência de um comportamento desejado, para incentivar e fortalecer esse comportamento.
COMO O CHOQUE PODE FUNCIONAR NESSES QUATRO QUADRANTES?
O choque pode sim causar bem estar ou dar prazer. Não é o uso mais comum, porém é possível. Para entender melhor vejamos o exemplo com pessoas e seus tratamentos médicos. O choque de baixíssima intensidade pode causar sensação de alívio de dores como no uso de TENS na sessão de fisioterapia e no tratamento da depressão chamado de ECT, onde choques na região cerebral geram aumento dos hormônios de prazer e satisfação. Além deste uso, por incrível que pareça, existe choque que causa prazer imediato em certas pessoas, já existem dispositivos e estudos comprovando que um choque especifico pode induzir mulheres a terem a sensação de orgasmo.
Então se depois de um comportamento qualquer o cão ao levar um choque e sentir prazer, o choque será reforço positivo. Se sentir mal estar, será punição positiva.
Se o choque for constante e manter o cão em sensação de mal estar, ao se retirar o choque o reforço será negativo. E se o choque constante estiver gerando sensação de prazer, ao ser retirado o choque a punição será negativa.
Quando o choque causa prazer, este choque atua como um reforço positivo. E quando esse choque cessa e o prazer é retirado, ocorre a punição negativa.
Porém a sensação mais comum que temos de choque é a de mal estar.
Quando o choque direto causa dor e sofrimento, a punição é positiva. Quando mantemos esse choque constante e seu mal-estar causado um determinado período de tempo, ao retirar esse choque geramos alivio e assim fazemos um reforço negativo.
PUNIÇÃO NO ADESTRAMENTO É MAUS TRATOS?
Não. A punição pode ser uma coisa boa para os animais.
Toda punição sim envolve uma perda em relação ao bem estar. Mas nem toda perda de bem estar é prejudicial.
O sofrimento é a forma principal que a natureza encontrou para a autopreservação dos seres vivos. É quando o ser vivo sente dor que ele se protege, se afastando da ameaça e aprendendo com aquele evento. Por exemplo, o fogo é algo muito bonito, ilumina e tem formas interessantes de se ver, também aquece a gente e nos faz se aproximar durante o frio. Porém ao chegar muito perto ou encostar no fogo sentimos dor. Isso nos ensina a distância que devemos manter para não queimar.
A dor e o sofrimento tem o poder de ensino. Isso é fato. Nós utilizamos isso constantemente na escola. Por exemplo, quando um aluno recebe nota baixa na escola, ele é punido. Esta punição de levar nota baixa causa mal estar, decepção, medo de reprovação e etc. Esta experiência de vida direciona o aluno a fugir da reprovação e se dedicar aos estudos como forma de passar de ano, de sobreviver na escola.
Mas a punição em excesso pode ser algo ruim e gerar maus tratos. Por exemplo, antigamente se usava a palmatória nas escolas. Aluno que ia mal levava uma palmada na mão. Este método de agressão física na escola pode se mostrar eficiente sim, porém é um excesso que causa sofrimento injustificável.
Mas, imagine que durante uma aula prática de química, um aluno curioso resolva colocar a mão em um frasco de ácido, o professor ao ver a cena e o comportamento indesejado imediatamente dá um tapa na mão do aluno evitando que ele sofra queimaduras. Sim, o aluno foi punido com um tapa na mão por ter tentado fazer o que não devia, e não vai mais por a mão sem autorização do professor, porém mesmo que seja um ato de educar por meio de agressão física, este tapa foi plenamente justificável porque ele salvou a mão do aluno de sofrer sérias queimaduras e sequelas.
Quando estamos adestrando um cão, devemos avaliar qual o comportamento indesejado ele apresenta e qual a proporção da punição que podemos aplicar de forma justificável.
Qualquer excesso punitivo será maus tratos. Mas a punição justif**avel e no limites do equilibrio entre o ato e a consequência pode perfeitamente ser algo benéfico.
COLEIRA DE CHOQUE É MAUS TRATOS?
Não, coleira de choque não signif**a maus tratos.
A coleira de choque é uma ferramenta que pode ser usada de forma punitiva sim. Igualmente podemos usar como punição outras ferramentas, como guias e coleiras comuns, rolos de jornal, garrafas que fazem barulho, gritos e imposições posturais, toque físico e etc.
Como visto, punição é algo presente e necessário para o aprendizado natural de todo ser vivo. A punição de forma proporcional e equilibrada é uma ferramenta de ensino muito importante e benéf**a.
Maus tratos é somente a punição em excesso, de qualquer forma, mesmo que seja feita somente na forma verbal com gritos.
Uma ferramenta de maus tratos é somente aquela ferramenta que tiver função específ**a para causar sofrimento injustificável ou desnecessário.
Além disso, a coleira de choque não serve somente para punir, de acordo com o uso, o choque pode causar prazer ou gerar bem estar. Por exemplo, o choque da coleira em baixa intensidade pode gerar prazer ao ser associado a uma boa refeição e servir para chamar o cão a longas distâncias.
AQUELA COLEIRA ELETRÔNICA QUE GERA IMPULSO ELÉTRICO OU ESTIMULAÇÃO ELÉTRICA NERVOSA TRANSCUTÂNEA (TENS), IGUAL NA FISIOTERAPIA, É COLEIRA DE CHOQUE?
Sim. Conforme definição da FUNDACENTRO, órgão do governo federal do Brasil que tem por objetivo elaborar estudos e pesquisas sobre as questões de segurança, higiene, meio ambiente e medicina do trabalho, o choque elétrico é o efeito patofisiológico que resulta da passagem de uma corrente elétrica, chamada de corrente de choque, através do organismo humano, podendo provocar efeitos de importância e gravidades variáveis. O funcionamento da TENS é a passagem de corrente elétrica pelo organismo, indo de um polo ao outro de um dispositivo e usando o corpo como passagem. Isso se encaixa perfeitamente na definição de choque elétrico.
O que acontece é que a intensidade da corrente elétrica determina se nosso corpo vai sentir ou não. Intensidades baixíssimas de corrente não são nem perceptíveis. E a frequência, formato de onda e demais propriedades da corrente elétrica também determinam onde e de que forma esse choque vai ser percebido. O equipamento de TENS faz um choque elétrico especial que somente é percebido pelos nervos e causa contrações e reações musculares. Ainda é um choque elétrico, porém não é percebido pelo nosso corpo da mesma forma que um choque elétrico comum.
A COLEIRA DE CHOQUE COMUM, MAIS BARATA, É MAUS TRATOS?
Não. Apesar do choque elétrico causado pela coleira de choque comum ser mais perceptível, o uso desta coleira pode ser feito normalmente como ferramenta punitiva benéf**a e também como ferramenta de reforço positivo, a depender da percepção do cão e da associação que for feita entre o estímulo.
SE A ESTIMULAÇÃO ELÉTRICA NERVOSA TRANSCUTÂNEA TENS É USADA NA FISIOTERAPIA SIGNIFICA QUE ELA É INOFENSIVA?
Não. Qualquer ferramenta pode ser utilizada de forma imprópria e excessiva, ou mesmo criminosa.
No caso da fisioterapia, o uso da fermenta de choque para fazer tratamento em outras pessoas é proibido, pois é exercício ilegal da profissão. Somente o fisioterapeuta pode usar a ferramenta para fazer tratamento em outras pessoas, pois envolve uma serie de questões da area da saúde. Mas para uso próprio é permitido. Existem equipamentos domésticos onde a pessoa pode fazer a estimulação em si mesma e sem nenhum problema, afinal ela mesma vai dizer se está se sentindo bem ou mal.
Além disso o uso na fisioterapia em nada tem relação ao uso em adestramento. Isso porque o uso na fisioterapia é somente para alivio da dor, e o profissional interrompe o tratamento a qualquer sinal de desconforto. Já no adestramento o desconforto pode ser utilizado como punição desde que justificável.
O QUE DIZ A FBAA FEDERAÇÃO BRASILEIRA DOS ADESTRADORES DE ANIMAIS SOBRE A COLEIRA DE CHOQUE?
Apesar de ser a favor do uso a FBAA em recente parecer sobre o uso da ferramenta, na minha avaliação se mostrou contra a coleira de choque comum, aquela que não usa a estimulação elétrica nervosa transcutânea (TENS), afirmando que somente a coleira que trabalha com TENS é a que seria recomendável, e por incrível que pareça, se mostrou também contra o uso punitivo desta ferramenta, afirmando que: "O colar eletrônico não é para ser usado como castigo, nem correção. Ela é apenas uma ferramenta de comunicação entre o treinador e o cachorro".
Ou seja, pelo que eu entendi, FBAA defende que o uso da coleira de choque deva ser somente no método de adestramento 100% positivo, o que na minha opinião limita de forma injustificável e prejudicial o exercício da profissão e uma série de técnicas de uso benéfico, justificável e equilibrado da correção por meio da punição positiva do choque elétrico.
Espero que este posicionamento da FBAA não contribua para a proibição da ferramenta.
É POSSIVEL FAZER O ADESTRAMENTO E INCLUSIVE A REABILITAÇÃO DE CÃES USANDO PUNIÇÃO POSITIVA, MAS SEM USO DE FERRAMENTAS ESPECÍFICAS PARA ISSO?
Sim. A punição positiva não é somente realizada com o uso de ferramentas ou mesmo com o uso de agressão física.
Como já citado, a punição positiva é uma situação de mal estar, e pode ser feita de inúmeras formas.
O grito, a bronca, a restrição alimentar, a limitação de espaço são todos exemplos de técnicas que podem ser utilizadas de forma punitiva, e não dependem de qualquer ferramenta e nem do contato físico.
É POSSÍVEL FAZER O ADESTRAMENTO E INCLUSIVE A REABILITAÇÃO DE CÃES SEM O USO DE PUNIÇÃO POSITIVA E CONSEQUENTE REFORÇO NEGATIVO?
As vezes sim, mas nem sempre. Em um resumo bem simplif**ado, quando o comportamento indesejado causa prazer no cão, comportamento auto reforçado, o adestrador pode frustrar o prazer deste comportamento com uso de impedimentos e em seguida gerar prazer em comportamentos desejados, direcionando o cão a extinção do comportamento indesejado com técnicas baseadas nessa estrutura. Por exemplo se um cão ataca e morde outros cães porque sente prazer neste comportamento, uma forma de trabalhar sem uso de punição positiva é o de limitar a mordida e a obtenção de prazer pelo cão com o uso de focinheiras e barreiras que impeçam ele de alcançar a satisfação, e simultaneamente direcionar seu prazer e saciedade de instintos a caça e ataque de itens permitidos como bonecos e brinquedos. Já se o ataque é por medo ou defesa então o trabalho visa fazer a dessensibilização e o contra condicionamento pata eliminar a necessidade em agredir. Não é nada fácil e envolve muita técnica, mas não é completamente impossível.
SE É POSSÍVEL O ADESTRAMENTO E INCLUSIVE A REABILITAÇÃO SEM USO DE FERRAMENTAS ESPECÍFICAS PARA PUNIR OU SEM USO DE PUNIÇÃO POSITIVA, ENTÃO PORQUE CONTINUAR USANDO ESTAS FERRAMENTAS?
Porque são fermentas benéf**as. É preciso abandonar o dogma de que punição nunca será benéf**a. Como já visto a punição pela dor e sofrimento é o principal mecanismo de auto preservação da natureza de todo ser vivo e ótima ferramenta para aprendizado.
Nunca se deve proibir o uso de ferramenta ou técnica benéf**a por mero preconceito, discriminação, política de boa aparência ou desinformação.
O que se deve proibir sempre é o abuso. E o abuso está em todas as ferramentas e em todas as técnicas. O grito pode ser abusivo. A limitação de espaço pode ser abusiva. A restrição alimentar pode ser abusiva. A provação de companhia pode ser abusiva. Até mesmo o prazer pode ser abusivo e gerar mal estar como por exemplo a hiperalimentação, o fornecimento de brinquedos ou itens perigosos com risco de ingestão e etc.
Maus tratos é algo a ser avaliado caso a caso. O que é abuso em uma situação pode não ser nada em outra, e ainda pode ser algo benéfico em um terceiro caso.
Tudo que pode ser usado de forma benéf**a deve ser permitido, e isso inclui a coleira de choque.
ENTÃO DEVEMOS USAR OU PERMITIR O USO A COLEIRA DE CHOQUE?
Não exatamente. Não quero aqui incentivar ou condenar o uso de qualquer ferramenta.
O uso ou não da coleira de choque é escolha pessoal de cada profissional, e de cada cliente.
Os adestradores profissionais podem fazer uso da ferramenta caso eles gostem e se sintam a vontade em utilizar, isso pode ser feito de forma completamente benéf**a e eficiente.
E todo cliente tem o direito de pedir pelo uso ou não permitir o uso de qualquer feramenta que ele goste ou não goste que seja usada em seu cão.