13/01/2020
Hoje decidi fazer um post sem imagens, porém com bastante conteúdo!
Recentemente venho percebendo um aumento no número de casos neurológicos em twisters e resolvi fazer este post. Outro motivo que me fez escrever sobre o tema é o fato de que muitos tutores, e até mesmo colegas veterinários, ainda não estão familiarizados o suficiente com os sinais clínicos na espécie para definir um diagnóstico preciso e precoce, o que é vital na maioria dos casos. Por isso, antes de mais nada, é importante saber que doenças neurológicas são frequentemente irreversíveis e quanto mais cedo o tratamento, melhores serão as chances de recuperação e/ou de maior qualidade de vida por mais tempo.
Com as melhorias nas condições de manejo dos últimos anos, nossos pets estão vivendo mais e, consequentemente, apresentando menos doenças devido a erros de manejo. Porém as doenças geriátricas começam a aparecer com maior frequência. Dentre elas, as alterações do sistema nervoso são umas das mais comuns. Por isso é muito importante estar atento para quaisquer dos sinais abaixo, por menor que sejam, principalmente em animais com mais de 18 meses de vida:
- Head tilt: cabeça torta ou inclinada para um dos lados. Apesar de ser um dos sinais mais clássicos, muitas vezes não está presente, mesmo em pacientes em estágio avançado;
- Head pressing: é o ato de pressionar a cabeça contra uma parede ou superfício rígida. Indica forte dor de cabeça e/ou dificuldade de equilíbrio;
- Quedas: ratos têm ótimo equilíbrio e não caem sem motivo aparente. Qualquer queda ou perda de equilíbrio é um péssimo sinal;
- Alteração de comportamento: sinal muito inespecífico, mas que já acende a luz amarela. Isto inclui aumento de agressividade ou, ao contrário, afeição, ritmo de sono alterado, etc;
- Hipo ou polidipsia e hipo ou polifagia: redução ou aumento exagerados no consumo de água e alimento. Geralmente quadros neurológicos em estágios iniciais são acompanhados de polidipsia e hipofagia e conforme o avanço da doença se tornam hipodipsia e anorexia. No caso de polidipsia, também haverá poliúria (aumento no volume de urina);
- Arrastar de cauda: um dos piores sinais. A cauda de um rato normal deve estar sempre um pouco levantada, no nível do corpo. Um animal arrastando a cauda indica que ele tem sérios problemas;
- Perda do reflexo de correção postural: o nome parece complicado, mas o conceito é simples: se virarmos a pata de um animal saudável, de modo que a planta do pé fique para cima, ele imediatamente vai "corrigir" a posição, colocando a planta virada para baixo, tocando a superfície. Um animal que não faça isso ou que demore a fazê-lo certamente tem uma alteração neurológica. Na prática, o que costumamos perceber no começo é o animal andando a arrastar a pata;
- Perda da coordenação motora fina: outro nome difícil, mas que é fácil de entender. Trata-se na dificuldade de usar as mãos. Um dos te**es que podemos fazer em casa é oferecer uma ervilha. Um rato normal irá segurá-la entre as duas mãos descascá-la sem dificuldade. Um animal doente provavelmente terá que apoiá-la no chão para fazer a mesma tarefa;
- Perda de equilíbrio: A maioria dos roedores conseguem f**ar "em pé" (apoiando-se apenas nas traseiras) sem qualquer dificuldade. Se o seu animal não consegue, ou consegue com certa dificuldade, ele certamente tem um problema;
- Alteração pupilar: um pupila mais dilatada que a outra;
- Perda de movimento.
Uma vez observados os sinais, precisamos saber quais doenças são mais comuns e o que fazer em cada caso:
- Acidente vascular encefálico (AVE, erroneamente também referido como AVC): geralmente ocorre de forma súbita. Costuma vir acompanhado de apenas alguns dos sinais acima mencionados e na maioria dos casos, o paciente consegue se recuperar bem, apesar de sequelas. Terapias também ajudam na recuperação;
- Tumor hipofisário (vulgarmente conhecido como tumor pituitário): apesar de afetar ambos os sexos, as fêmeas idosas são as mais acometidas. Muitas vezes estão associados a tumores mamários e os sinais são múltiplos e graduais, aumentando a medida que o tempo passa. Existe tratamento para retardar o avanço da doença e manter a qualidade de vida por tempo variável, que pode ir de dias até meses, mas é irreversível e em estágios avançados, o animal f**a em intenso desconforto, incapacitado de se mover, comer e até beber. Por isso, o tutor deve sempre se preparar para a ideia de eutanásia. Em breve pretendo falar mais sobre esta doença em particular.
- Convulsões: menos comum que os dois primeiros, é similar à doença em outras espécies em sintomas e nos cuidados. Um dos principais desafios é criar um ambiente seguro, onde o animal não se machuque durante uma crise, como evitar plataformas que propiciem quedas. Na verdade, as convulsões podem ser sintomas de algo mais grave e sua causa deve ser investigada exaustivamente. Exige acompanhamento veterinário rotineiro, porém se bem tratada, costuma permitir uma boa qualidade de vida.
- Encefalites: mais rara dentre todas as citadas, pode ocorrer em animais em más condições de higiene. Pode ser viral, bacteriana ou fúngica; o prognóstico é extremamente reservado. Quando de origem bacteriana ou fúngica, costuma formar um abscesso que comprime o cérebro, geralmente sendo fatal.
Além destas doenças, existem algumas que não são neurológicas em si, mas que produzem sinais parecidos. As principais delas são as otites e a osteoartrite degenerativa, mas isto será assunto para um outro post...