15/09/2017
O tal bicho, javali-europeu, foi introduzido como um animal de criação na América do Sul, principalmente na Argentina e no Uruguai, e também em algumas partes do Brasil. No Rio Grande do Sul, animais asselvajados foram vistos pela primeira vez em 1991. Em 1997, já estavam em seis municípios, e uma década depois, em 200. A tomada foi similar em Santa Catarina, onde os javalis – e o híbrido javaporco, um bichão que pode chegar até 250 quilos – se encontram em grande parte do estado. Não há números oficiais para a quantidade de javalis no país, mas quem trabalha perto do problema calcula que já há mais de 1 milhão deles. Sem predadores, os animais procriam livremente, em ninhadas anuais que podem chegar a até dez leitões.
Soltos no ambiente natural, javalis provocam diversos impactos, da morte de espécies nativas ao assoreamento de leitos de rios. As consequências mais graves, porém, são econômicas e sociais: os porcos gigantes destroem lavouras, atacam pessoas e podem transmitir doenças para homens e animais de criação. Há registros de manadas no Paraná, em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Tocantins, Acre e em Rondônia. “O javali é uma espécie invasora que está causando danos tremendos”, afirma João Riograndense, coordenador-geral de fauna e pesca do Ibama. “É uma questão que preocupa a instituição desde 1995. Até então, o problema estava localizado no Rio Grande do Sul, mas hoje está disseminado pelo país.”
Desde 2013 a espécie passou a ser considerada uma praga pelo órgão que, como forma de controle, liberou o abate dos animais, com armadilhas e armas. A decisão foi a legalização de uma prática que já acontecia pontualmente nos estados mais afetados, e está em linha com o que é feito em países como Estados Unidos, Austrália e França. “Agora queremos avaliar e aprimorar o processo”, diz Riograndense, que trabalha na elaboração de um plano de ação nacional para a questão.
Mesmo que o tema tenha uma dimensão polêmica, o plano de ação nacional deve continuar incluindo armas de fogo no controle da situação – quem executa a atividade de disparar contra os animais são, pois, controladores. A decisão do Ibama, porém, trouxe à tona uma outra palavra, que é tabu no país: caça.
Caçar é proibido no Brasil desde 1967, embora o texto da lei federal de proteção à fauna deixe espaço para uma regulamentação da caça amadorística, que nunca foi feita (a caça profissional é realmente proibida). A exceção é o Rio Grande do Sul, onde as temporadas de caça eram gerenciadas pelo Ibama gaúcho, com base em estudos técnicos, até serem canceladas por uma decisão judicial nos anos 2000.