10/06/2018
Querem me devolver para a Senzala
Tenho vivido uma situação de pesar e tristeza que jamais pensei ser possível na cidade em que vivo há quase 50 anos.Um lugar onde sempre caminhei com tranquilidade e orgulho, onde cresci, amadureci, criei raízes e construi minha família. Esta cidade tomou meu coração e a ela me dediquei durante todos esses anos,eduquei crianças e adolescentes de vários bairros enquanto professor; ensinei a refletirem, questionarem, e valorizarem a todos , a respeitarem os espaços e as outras pessoas.
Hoje choro com vergonha o choro dos traídos, o choro da decepção,o lamento por me sentir expulso de meu próprio lar.Choro magoado pela terra que piso, na cidade que escolhi, a cidade que tem rua com o nome de minha mãe.Vergonha!
Perdi o direito de ser religioso, de exercer minha fé, e de tornar minha fé pública.
Vejo cartazes, convites, manifestos públicos divulgando campanhas e atos contra as minorias, contra o racismo, falando de intolerância religiosa... e,de repente, me vejo sendo rigorosamente punido pelo orgão público porque meu culto ofende a dois vizinhos( que são obviamente de religiões diferentes).
Sim, o som do meu atabaque ofende, agride, é insuportável, embora seja o mesmo som que ecoa em tantas outras casas de culto idêntico ou semelhante ao meu há décadas nas periferias da minha amada cidade, sem que ninguém se incomode e nem despertando a ira dos chefes das pastas do setor de posturas do município.
Por que o som do meu culto é tão ofensivo, em que se diferencia dos demais? Será porque não estou na periferia, será porque em meu bairro está uma parte da população considerada"elitizada"?
Notei que ninguém se ofende com outros tipos de som (músicas como funk por exemplo, ainda que a letra seja repleta de palavras de baixo calão).
O que incomoda é o som da minha fé. Porque o som do atabaque anuncia a chegada dos meus orixás, e isso remete aos primórdios nas senzalas, relembra a vergonha da chibata no lombo de meus ancestrais.
Um dos vizinhos reclamantes já foi chefe do setor que hoje me pune covardemente e indevidamente, usando de sua influência para causar efeitos surreais que tem convencido os fiscais a aplicarem multas absurdas por ruídos que sequer foram mensurados por aparelho adequado ou orgão competente. Nenhum deles jamais fez uma visita ou autuação em meu templo.A única notificação que foi entregue foi assinada por uma criança, que nem sabia do que se tratava; até onde sei, documentos oficiais não devem ser entregues para que menores assinem.E todo o processo tem sido feito em prazo recorde, pra que nem se tenha tempo de defesa.
Aliás, não há como ter defesa contra toda a agressividade que tenho sofrido o lado de meus filhos de fé, até rojões tem sido jogados dentro do nosso templo, que é o espaço de nossa fé. E nosso atabaque continua a ofender, ao ponto de chamarem a polícia, 3 viaturas!!! Evidenciando um tratamento que deveria ser dado apenas aos criminosos, nunca a atos pacíficos e ao exercício da fé.
A única resposta possível para que queiram calar a minha fé é o total e absoluto desrespeito, a intolerãncia religiosa escancarada , é a fé do meu vizinho ser contrária à minha, além ,é claro,da influência pública do outro.Afinal, qual é a diferença de meu Deus ser chamado de Oxalá e o dele de Jeová?
Tenho pensado muito no motivo que torna tal perseguição tão eficiente.Deveria me retirar para a zona rural, para o meio dos canaviais, me esconder como um bandido, me resignar a ser oprimido nas periferias mais distantes e esquecidas pelas autoridades públicas?
Por quê os outros no meu bairro teriam mais direitos que eu, visto que já resido aqui há 30 anos e pago meu IPTU tal como eles?
Não, eu não posso.Sou feito de minha fé,me orgulho de ser um sacerdote do Sagrado,não quero e nem posso desonrar meus ancestrais que resistiram até a torturas e humilhações, pois foi deles que eu herdei o meu axé.
Entregar minha crença às canetas de meia dúzia de mentalidades radicais e preconceituosas seria imperdoável.
O meu candomblé tem raízes, tem história, é família, amor, caridade e cultura.Meu candomblé nasceu comigo, é meu orgulho, e se realiza aqui, dentro da casa em que moro com minha família, cujos impostos estão todos pagos em dia.
Sim,meu candomblé toca tambor, é o chamado de meus orixás, e deveria ter o mesmo respeito do sino das igrejas, não estou ofendendo ninguém.
Porém, se as autoridades e os fiscais que recebem seus salários dos cofres públicos, que contam inclusive com a contribuição dos meus impostos,se prontificam a defender todo esse abuso, quem irá defender a mim?
Eu sinto que meus tambores são apenas um pretexto para que eu leve meu culto pra longe deles, porque o que os irrita é a falta de conhecimento sobre a religião que represento, o que os ofende é a crença de que minha cultura milenar é "superstição e coisa de gente ignorante", ou de "gente possuída",como disseram. Afinal,como "os macumbeiros" se atrevem a morar num bairro de elite?
Por anos eu ensinei meus filhos a respeitarem as diferenças.Em minha casa, todos são bem recebidos, inclusive os praticantes da religião do meu vizinho, que tanto tem nos hostilizado. Meus filhos sempre se orgulharam da minha fé e de como eu a conduzo em benefício do próximo.Meus filhos não seguem a minha fé mas a respeitam , admiram e valorizam sua cultura e história.
Minha fé se manifesta apenas de quinze em quinze dias,aos domingos, das 14 às 17 horas... qual incômodo isto pode causar?
Não é o som que incomoda, mas sim o que ele representa: a nobreza milenar do meu candomblé, a voz do meu axé.Somos minoria, e por isso tentam nos aniquilar.Então, não vou me calar, e aqui permanecerei, com meu sagrado,minha fé e minha tradição.
Sou sacerdote do candomblé. Sou de Araraquara. Sou da fé. E não retornarei para as senzalas.Enfrento com orgulho o meu direito de permanecer aqui.
Se estou entre a maioria branca que se considera superior, se estou no bairro da elite, meus orixás estão aqui comigo, na minha alma, na minha história, em minha casa, na minha cidade.Eu não volto mais para as senzalas, pois acreditem ou não, senzalas não existem mais.
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Babalorixá Ivan de Oxum
Sacerdote do Ilê Asè Oxum Opará.