04/07/2018
Animais também são vítimas da sinistralidade rodoviária
Mortos e ‘enterrados’ nas estradas
Por Edno Pimetel
Fotos Por Máriov Mujetes
Mesmo sem estatísticas oficiais, cães e gatos também são vítimas da sinistralidade. O cenário nas rodovias não ocorre apenas na capital. A polícia responsabiliza as administrações pela ausência de recolha dos animais. O governo de Luanda empurra ‘a bola’ para as empresas de limpeza. Os médicos falam de atentado à saúde pública.
O índice de sinistralidade rodoviária é ainda considerado como uma das principais causas de morte em Angola. Mas não são apenas as pessoas que fazem parte dessa estatística. Os animais, sobretudo o que o advogado e político norte-americano George Graham Vest considerava como “melhor amigo do homem”, também não fogem à regra.
Cães e gatos são vistos mortos durante vários dias nas ruas de Viana, no Kilamba, na Estrada Nacional EN 230, de Luanda-Malanje, na EN100, de Luanda-Benguela, e mesmo em áreas nobres. Os condutores passam e repassam por cima até que estes, apenas restando a pele, são recolhidos pelo vento. Para muitos bichos de estimação, as estradas têm sido a última morada.
O director dos Serviços Comunitários da Comissão Administrativa de Luanda classifica o comportamento de muitos automobilistas – de passarem por cima dos animais nas estradas – uma “autêntica crueldade”, principalmente porque os animais já mortos são atropelados e ficam expostos à vista de crianças”.
Segundo Sílvio de Jesus Alvarenga, às operadoras de limpeza cabe a responsabilidade de recolher os animais mortos nas vias porque, naquele estado, passam a ser considerados como “lixo” e podem causar “muitas doenças”.
O comandante da Unidade de Trânsito de Luanda, superintendente-chefe Roque Silva, reconhece que “a polícia não dá tratamento aos cães vadios” que são atropelados e atira a responsabilidade para os serviços comunitários. “São as administrações municipais que devem fazer a recolha desses cadáveres de animais, mas infelizmente não o fazem, criando, deste modo, constrangimentos à circulação viária”, aponta Roque Silva, acrescentando que, “quando as pessoas são atropeladas mortalmente, os corpos são recolhidos por uma equipa da polícia de que fazem parte os Serviços de Investigação Criminal”. “Não se compreende como é que animais permanecem mortos nas estradas durante vários dias até atingirem ao estado de putrefação”.
CÃES ‘MULTADOS’
A Comissão Administrativa de Luanda lançou, na passada semana, o programa de captura de animais que terá a duração de um mês. O objectivo é controlar o vírus da raiva. Com esta medida, segundo o director dos Serviços Comunitários da Comissão de Gestão de Luanda, que tem as componentes ‘vigilância epidemiológica’, ‘vacinação e captura de animais’ e ‘informação e educação da população’, vai “reduzir-se o número de animais vadios nas ruas e, por conseguinte, o número de animais atropelados”.
Os animais capturados vão para o canil-gatil onde serão tratados, vacinados e alimentados, durante dois dias à espera que os donos os vão buscar. No entanto, Sílvio Alvarenga alerta que se os proprietários não aparecerem, “o governo de Luanda dará o tratamento que achar conveniente”.
Quem for reaver o animal, passados dois dias deverá pagar uma multa de dois mil kwanzas por dia, mais 20 mil pela transgressão.
FALTA FORMAÇÃO
A falta de formação sobre os cuidados é apontada como uma das causas do elevado número de animais vadios. Foi criada uma equipa multissectorial em que o Instituto de Serviços de Veterinária vacina e as administrações recolhem os animais e a Ordem dos Veterinários faz a educação nas escolas secundárias e nas universidades. “O que se pretende é a mudança de comportamento. Os cidadãos têm de deixar de pôr os cães na rua. Se tratarem bem deles, terão menos doenças, reduz-se o número de mortes por raiva e nenhum animal será atropelado na via, para depois decompor-se e criar problemas de saúde pública”, garante Antonieta Baptista, bastonária da Ordem dos Veterinários de Angola.
Via: Jornal Nova Gazeta