05/05/2026
💫💜Foi talvez o coelho que mais me marcou, para sempre: chamava-se Kevin, ganhou algumas qualificações nos concursos/exposições (estivemos na EXPONOR e na FIL), era da raça Lionhead e da côr magpie blue (branco tigrado de azul). Com uma juba e saia felpudas e deslumbrantes, e os seus enormes olhos castanho-acinzentados, ele fazia-me ficar horas a olhar para ele, enquanto ele brincava pelo Coelhário. Eu adorava-o.
Mas como tudo o que vive, também morre, chegou a sua hora, e eu fiquei destroçada.
Eu não queria acreditar. Fui logo com ele ao veterinário, o tratamento foi prescrito, e veio em ambulatório para casa, com uma advertência do veterinário..."Lembre-se, não é garantido que sobreviva, nem sequer é garantido que melhore.".
Eu vim para casa com ele, pus todos os alarmes no telemóvel para a medicação dele, e começou a minha luta...contra mim mesma.
A Vida, a Doença, e a Morte, são três realidades que acompanham quem é criador de animais. Para mim, os melhores companheiros que se pode ter, são os animais! Mas quando adoecem, nós quase que também adoecemos com eles, de preocupação, de expectativa, de esperança e finalmente de resignação/aceitação. Mas quando se é criador, de seja qual for a espécie, todo este processo toma um novo significado e uma dimensão muito maior: estes animais não existem na Natureza, logo sentimo-nos como Deus e a Mãe-Natureza, e sentimos a responsabilidade nos ombros. E esta responsabilidade junta-se à dor de ver o nosso amigo doente. Ainda tive aquele pensamento "Vou deixar-te lá: ficas lá, na Clínica vigiado, e ficas nas mãos da Mãe-Natureza, e ela fará o que fôr melhor" . Mas rapidamente preferi estar junto dele, acompanhá-lo.
A preocupação inicial pela doença do Kevin, deu lugar à expectativa de o ver melhorar. Mas as horas sucederam-se e poucas melhoras...
Veio, não obstante, a esperança, "Se o veterinário receitou, se se estudou e há casos de sucesso, tenho de acreditar!". E agarrada a esta ideia, fiquei obstinada em afastar a ideia de que, no fundo, no fundo, eu sabia que a Mãe-Natureza é que decidia!...
Semeei pensamentos de esperança, dizendo para mim mesma que "o pensamento positivo opera milagres!" ...
O Kevin continuava a comer e beber, e a minha esperança não queria arredar pé! Mas o Kevin estava a perder peso. As conversas com o veterinário eram quase todos os dias, tendo chegado os dois a uma concordância: era preferível para o Kevin ter-me a seu lado o tempo todo e estar no seio dos outros coelhinhos, do que ir para a Clínica, e deixar de nos ver. E na minha obstinação de não desistir, uma ideia começou a espreitar: "A Mãe-Natureza é que sabe!...A Mãe-Natureza é que sabe!".
A minha preocupação constante tinha sido detectada pelo Kevin. E ele, na sua infinita meiguice, depositava a sua cabeça na minha mão, e parecia dizer-me "Não fiques triste! Acompanha-me simplesmente, até a Mãe-Natureza me acolher.".
Dormi sobre o assunto.
Na manhã seguinte acordei a pensar "Eu não tenho poder para resolver nada! Afinal, ele pertence à Mãe-Natureza, tal como eu. A única coisa que posso resolver é decidir acompanhá-lo, aqui em casa junto dos outros coelhinhos, mas com serenidade, e orar " Mãe-Natureza, tu é que sabes o melhor para ele, e eu aceito o que fizeres: nas tuas mãos, Mãe-Natureza, entrego o meu Kevin!"
O Kevin pareceu ter percebido algo. Serenou, sossegou, e eu com ele sosseguei. O Kevin adormeceu como que "enroscado" em meia-lua. Eu olhei-o e pensei " Estás nas mãos da Mãe-Natureza, meu amigo!". E fui descansar.
Passou a noite, amanheceu, eu acordei, e fui mesmo de pijama ao Coelhário. O meu Kevin continuava deitado na mesma posição. Mas a Mãe-Natureza já o havia levado há algum tempo.
Levei o corpo à Clínica, pedi a cremação e as cinzas numa pequena urna. Voltei para casa, e no caminho, fiz um desvio, fui junto a uma zona lacustre, e ali devolvi as cinzas do meu Kevin à Mãe-Natureza, e lembro-me de orar "Mãe-Natureza, recebe-o, usa-o para fertilizar a terra, para dar vida a plantas, que darão vida a muitas mães com filhotes, e o círculo fecha-se e perpetua-se! E tu, meu amigo Kevin, desempenhas o teu papel final neste círculo!"
E assim partiu um dos coelhinhos que mais me marcou enquanto criadora, e já lá vão cerca de 9 ou 10 anos.
Mas com uma certeza eu fiquei para toda a minha vida de criadora: a última palavra é sempre da Mãe-Natureza, e devemos entregar nas mãos dela, quando já fizemos tudo o humanamente possível.💜💫